Resort ligado a Toffoli tem cassino com máquina de apostas e blackjack, segundo Metrópoles
O Resort Tayayá, localizado em Ribeirão Claro, no norte do Paraná, e construído por familiares do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), abriga um espaço com funcionamento semelhante ao de um cassino, de acordo com o furo de reportagem do Metrópoles. O local passou a ser alvo de questionamentos após levantar suspeitas sobre a atuação do ministro no julgamento envolvendo o Banco Master.
Entre as atrações disponíveis estão máquinas eletrônicas de apostas e mesas destinadas a jogos de cartas. No ambiente, é possível participar de partidas de blackjack, modalidade proibida pela legislação brasileira, com apostas em dinheiro. Todos os jogos observados pela reportagem envolviam valores reais.
Na cidade, o empreendimento é popularmente chamado de “resort do Toffoli”. Embora o nome do ministro não apareça em documentos oficiais relacionados ao hotel, funcionários afirmam tratá-lo como proprietário. A reportagem se hospedou no local nesta semana e ouviu esse tipo de referência por parte de empregados.
No fim do ano passado, o resort foi fechado para a realização de uma festa privada destinada a familiares e convidados. Àquela altura, o empreendimento já havia sido negociado por dois irmãos e um primo do ministro com um advogado ligado à J&F, grupo empresarial dos irmãos Joesley e Wesley Batista.
O espaço destinado às apostas conta com 14 máquinas de vídeo loteria. Apesar de funcionarem, na prática, como caça-níqueis, esses equipamentos são regulamentados pelo governo do Paraná. O ambiente é fechado, com iluminação artificial, carpetes e luzes de neon, remetendo à estética de cassinos internacionais.
Repórteres estiveram no local sem se identificar e relataram que, após o horário oficial de encerramento, às 23h, foram convidados a participar de outros jogos, incluindo o blackjack. Nessa modalidade, o jogador disputa contra um dealer para alcançar a soma de 21 pontos, prática considerada ilegal no Brasil quando envolve apostas em dinheiro.
A reportagem também constatou a ausência de controle rigoroso de acesso ao espaço de jogos. Em duas ocasiões, crianças foram vistas utilizando máquinas eletrônicas de apostas, em meio a adultos que consumiam bebidas alcoólicas.
Apesar da proibição dos jogos de azar presenciais no país, uma decisão do STF em 2020, no julgamento da ADPF nº 492, permitiu que estados explorassem as chamadas vídeo loterias. O entendimento, relatado pelo ministro Gilmar Mendes, afastou a exclusividade da União nesse tipo de exploração. Dias Toffoli acompanhou o voto do relator. Ainda assim, a legislação brasileira não autoriza jogos de cartas com apostas em dinheiro nem partidas conduzidas por dealers, que continuam ilegais.
Dias Toffoli frequenta o Resort Tayayá com regularidade. O ministro dispõe de uma residência em uma área reservada do complexo, voltada a hóspedes de alto padrão, além de acesso a uma embarcação mantida no píer do resort. Outra casa no local é utilizada por seu irmão, José Carlos Dias Toffoli.
José Carlos e outro irmão do ministro, José Eugênio, foram sócios de uma incorporadora avaliada em cerca de R$ 30 milhões, responsável pela construção dos apartamentos do resort. Antes de atuar no setor imobiliário, José Carlos era padre. Funcionários afirmam ainda que outros ministros do STF já se hospedaram no local, entre eles Cármen Lúcia.
Situado às margens da represa de Xavantes, próximo à divisa entre Paraná e São Paulo, o resort pratica diárias que chegam a R$ 2 mil nas acomodações mais simples. O empreendimento chama atenção pela arquitetura rústica, estilo que, segundo funcionários, agrada ao ministro, conhecido internamente pelo apelido de “Zé”.
A estrutura de lazer inclui seis piscinas, sendo três aquecidas, quadras de tênis e beach tennis, além de atividades recreativas voltadas ao público infantil. O acesso ao local exige logística específica: hóspedes que chegam de avião precisam fretar um voo até Ourinhos, no interior paulista, e seguir de helicóptero até o resort.
Procurado, o advogado Paulo Humberto negou a existência de jogos ilegais no Tayayá. Segundo ele, as atividades oferecidas são autorizadas pela loteria estadual e as mesas de cartas têm caráter exclusivamente recreativo, sem incentivo ou interferência do estabelecimento em apostas. O ministro Dias Toffoli não respondeu aos questionamentos da reportagem do portal Metrópoles.
