O STF em chamas: como a crise entre Moraes e Mendonça pode incendiar a campanha de Lula

Foto: Divulgação / STF

O Supremo Tribunal Federal vive, neste início de setembro de 2026, uma das crises mais graves de sua história recente — e, dessa vez, o incêndio não vem de fora, da praça, dos bolsonaristas ou dos ataques de Trump. Vem de dentro, do próprio plenário, e ameaça respingar diretamente na campanha eleitoral que se desenha para outubro.

O estopim: o relatório que ninguém queria ver

Tudo começou quando o ministro André Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal sobre o Banco Master, expondo mensagens trocadas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro — preso desde março, acusado de fraude bilionária — e o ministro Alexandre de Moraes. A partir daí, o que era uma investigação bancária virou uma guerra aberta dentro da Corte: Moraes revidou incluindo Mendonça num antigo inquérito das fake news, aberto ainda em 2019 e nunca concluído; Mendonça, por sua vez, foi retirado desse inquérito pelo presidente do STF, Edson Fachin, no dia seguinte.

O resultado é um STF paralisado por acusações cruzadas, com prazos, manifestações e pedidos de investigação se acumulando na mesa de Fachin, que optou por adiar as decisões mais espinhosas para depois do dia 14 de setembro — justamente às vésperas do início mais quente da campanha eleitoral. Enquanto isso, o Senado já reúne dezenas de pedidos de impeachment contra Moraes, assinados por um arco de parlamentares que vai da direita ao centro, incluindo nomes como Flávio Bolsonaro, Damares Alves e até parlamentares mais moderados como Alessandro Vieira.

Um problema que não é só do Judiciário

É tentador tratar esse imbróglio como uma briga interna, restrita aos onze ministros e seus gabinetes. Mas seria ingenuidade. O desgaste institucional do STF — hoje envolto em suspeitas de proximidade com um banqueiro investigado por fraude, em acusações mútuas de perseguição e em editoriais de grandes jornais pedindo a saída de um ministro — não fica contido dentro dos muros da Praça dos Três Poderes. Ele vaza para a política, para a opinião pública e, principalmente, para a campanha de quem, goste ou não, carrega nas costas o peso simbólico de ter defendido a atuação de Moraes ao longo de todo o seu mandato.

É esse o ponto central: o presidente Lula construiu, ao longo dos últimos anos, uma relação de blindagem política em torno de Moraes, tratando qualquer questionamento ao ministro como ataque à democracia. Funcionou enquanto a narrativa era "Moraes contra o golpismo bolsonarista". Mas agora a crise não vem de fora — vem de outro ministro do Supremo, indicado por Bolsonaro, é verdade, mas cuja denúncia carrega um componente que independe de lado político: a suspeita de proximidade indevida com um banqueiro fraudador. Isso muda o jogo.

O custo eleitoral de uma bandeira que virou fardo

Faltando poucas semanas para o primeiro turno, a imagem do governo Lula corre o risco de ficar refém de uma crise que ele não criou, mas da qual não consegue mais se descolar. Cada nova reportagem sobre mensagens de Vorcaro, cada novo pedido de impeachment, cada nova rodada de acusações entre ministros reforça, na cabeça do eleitor médio, a sensação de que a "mais alta Corte do país" virou um balcão de disputas pessoais — e que o presidente, ao insistir em ser o principal fiador político de Moraes, comprou uma briga que não é sua, mas que vai custar caro na régua da opinião pública.

Não se trata de fazer juízo antecipado sobre a conduta de Moraes ou de Mendonça — isso cabe à própria Corte, ao Senado e, no limite, à Justiça apurar. O que se trata é de reconhecer um fato político elementar: crise institucional, em ano eleitoral, contamina quem está no poder. E quanto mais o governo tentar abraçar a causa de Moraes como se fosse sua própria bandeira, mais ele amarra sua narrativa de campanha a um imbróglio que cresce a cada dia, alimenta o discurso da oposição sobre "aparelhamento do Judiciário" e distancia o debate eleitoral dos temas que realmente deveriam pautar a corrida pelo Planalto: emprego, inflação, saúde e segurança.

Lula tem, hoje, um dilema real: seguir irrestritamente atrelado a Moraes e torcer para que a poeira baixe antes de outubro, ou tomar distância prudente de uma briga que ele não controla e que, a cada semana, cresce mais. A indefinição de Fachin, empurrando decisões para cima da eleição, só piora esse cenário — porque garante que o assunto STF continuará no noticiário exatamente quando o governo mais precisaria falar de outra coisa.

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Autor Colunista

MAURÍCIO JÚNIOR

Um apaixonado por política, CEO da MRO Mídia e com muito orgulho fundador da Network Digital 1.

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