Rio de Janeiro: como facções e milícias disputam territórios e desafiam o Estado brasileiro
A disputa entre facções criminosas e grupos paramilitares no Rio expõe falhas históricas do Estado e revela como crime organizado se consolidou nas últimas décadas.
O Rio de Janeiro abriga alguns dos cartões-postais mais conhecidos do planeta, mas também se tornou um dos cenários mais complexos da segurança pública no Brasil. Nas últimas décadas, o avanço do crime organizado no Rio de Janeiro colocou facções criminosas e milícias no centro do debate sobre segurança pública no país.
A complexidade da segurança pública no Rio de Janeiro mostra que o enfrentamento ao crime organizado depende não apenas de ações policiais, mas também de políticas públicas capazes de reduzir desigualdades históricas e fortalecer a presença do Estado em territórios onde ele esteve ausente por décadas.
A compreensão desse fenômeno exige olhar para além das operações policiais do cotidiano. É necessário analisar a formação histórica dessas organizações, a transformação da economia do crime e as falhas institucionais que permitiram sua expansão ao longo de décadas.
A origem das facções no sistema prisional
A história das facções no Rio de Janeiro começa dentro do sistema penitenciário. Nos anos 1970, durante o período da ditadura militar brasileira, presos comuns e presos políticos passaram a conviver em unidades prisionais como o antigo Instituto Penal Cândido Mendes, localizado na Ilha Grande.
Foi nesse ambiente que surgiram formas de organização coletiva entre detentos. Parte dos presos comuns passou a adotar estratégias de solidariedade e disciplina inspiradas na convivência com militantes políticos. A partir dessa convivência nasceu uma organização que posteriormente ficaria conhecida como Comando Vermelho.
Inicialmente, o grupo se estruturou como uma espécie de pacto de proteção entre presos. O objetivo era reduzir conflitos internos e enfrentar abusos dentro do sistema carcerário. Com o tempo, porém, essa organização ultrapassou os muros da prisão e passou a se articular também nas comunidades da capital fluminense.
Durante as décadas de 1980 e 1990, o Comando Vermelho consolidou sua presença em diversas favelas da cidade, criando redes de controle territorial associadas principalmente ao tráfico de drogas. O modelo adotado combinava domínio armado de determinadas áreas com a imposição de regras próprias de convivência.
Essa expansão coincidiu com o crescimento do mercado internacional de cocaína e com o aumento da circulação de armas ilegais no país. O resultado foi o fortalecimento de uma estrutura criminosa com capacidade crescente de organização e financiamento.
A fragmentação do crime e o surgimento de novos grupos
Com o passar dos anos, o cenário da criminalidade no Rio se tornou mais fragmentado. Dissidências internas no próprio Comando Vermelho levaram à criação de outras facções, como o Terceiro Comando e, posteriormente, o Terceiro Comando Puro.
Essas divisões provocaram disputas violentas por território, especialmente em regiões periféricas da cidade. Bairros e comunidades passaram a ser controlados por diferentes grupos, criando uma espécie de mapa fragmentado do crime organizado.
Ao mesmo tempo, uma organização que havia surgido em outro estado começava a ganhar projeção nacional. Fundado dentro do sistema penitenciário paulista em 1993, o Primeiro Comando da Capital ampliou gradualmente sua influência para diversas regiões do país.
Embora o Rio de Janeiro não seja considerado a principal base territorial do PCC, especialistas em segurança pública apontam que a organização mantém relações comerciais e logísticas com grupos locais, especialmente no que diz respeito ao tráfico de drogas e à circulação de armas.
Esse processo de conexão entre diferentes organizações criminosas contribuiu para tornar o crime organizado no Brasil cada vez mais integrado em escala nacional.
O surgimento das milícias
Enquanto as facções ligadas ao tráfico consolidavam territórios em diversas comunidades, outro fenômeno começava a se desenvolver no Rio de Janeiro: o crescimento das milícias.
Esses grupos tiveram origem principalmente a partir da atuação de policiais, ex-policiais, bombeiros e agentes de segurança que passaram a organizar estruturas paramilitares em bairros da zona oeste da cidade.
Inicialmente, parte dessas organizações se apresentava como uma alternativa ao domínio das facções de tráfico. A promessa era expulsar traficantes e oferecer segurança para moradores de determinadas regiões.
Com o passar do tempo, porém, as milícias passaram a desenvolver suas próprias atividades econômicas ilegais. Entre elas estão a cobrança de taxas de segurança, exploração do transporte alternativo, controle da venda de gás, serviços de internet clandestina e até a comercialização irregular de imóveis.
Hoje, especialistas consideram que as milícias representam uma das formas mais complexas de crime organizado no estado.
Investigações conduzidas por órgãos como a Polícia Federal e a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro apontam que esses grupos desenvolveram redes de influência que muitas vezes ultrapassam o campo da segurança pública, alcançando também estruturas econômicas e políticas.
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Casos recentes investigados por autoridades federais mostram como essas redes podem alcançar diferentes estados e estruturas empresariais. Um exemplo foi a investigação envolvendo o empresário Fernando Vorcaro, tema abordado em outra reportagem do ND1 sobre a CPI do crime organizado que convocou o empresário investigado.
A disputa por territórios
Atualmente, o território do Rio de Janeiro apresenta uma configuração marcada por diferentes zonas de influência. Algumas comunidades permanecem sob domínio de facções ligadas ao tráfico, enquanto outras são controladas por milícias.
Essa divisão territorial gera disputas frequentes. Em determinadas regiões da cidade, confrontos armados ocorrem quando grupos rivais tentam expandir áreas de atuação ou recuperar territórios perdidos.
Essas disputas afetam diretamente a vida de milhões de moradores que vivem nas áreas mais impactadas pela presença do crime organizado.
Para muitos especialistas, o problema não pode ser explicado apenas pela presença de grupos criminosos armados. Ele também está relacionado a fatores estruturais como desigualdade social, ausência histórica de serviços públicos e fragilidade institucional.
O papel do Estado
Ao longo dos últimos anos, diferentes governos estaduais adotaram estratégias variadas para enfrentar o problema da criminalidade organizada.
No atual cenário político, o governo do estado é comandado por Cláudio Castro, do Partido Liberal. A gestão estadual tem investido em operações policiais de grande porte e na ampliação de programas de inteligência.
Essas ações incluem operações conduzidas pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro e pela Polícia Civil, muitas vezes com apoio da Polícia Federal.
Apesar dessas iniciativas, especialistas apontam que o enfrentamento ao crime organizado exige estratégias mais amplas, que envolvam políticas sociais, urbanização de comunidades e fortalecimento das instituições públicas.
O desafio estrutural
O Rio de Janeiro tornou-se, ao longo de décadas, um laboratório complexo de dinâmicas do crime organizado no Brasil.
A coexistência de facções ligadas ao tráfico, milícias com estrutura paramilitar e redes criminosas conectadas nacionalmente cria um cenário de alta complexidade para as autoridades.
Compreender essa realidade exige analisar não apenas episódios de violência pontuais, mas também as raízes históricas e institucionais que permitiram o surgimento dessas organizações.
O debate sobre segurança pública no Brasil continua sendo um dos temas centrais da agenda política nacional, especialmente em estados onde a presença do crime organizado impacta diretamente o cotidiano da população.
A dinâmica do sistema prisional e a reprodução das facções
Outro elemento frequentemente apontado por especialistas em segurança pública é o papel do sistema penitenciário na manutenção e expansão das organizações criminosas. Ao longo das últimas décadas, presídios brasileiros passaram a funcionar não apenas como locais de cumprimento de pena, mas também como centros de articulação estratégica para facções.
No caso do Comando Vermelho, essa relação é histórica. Desde a sua origem dentro do sistema prisional, a organização desenvolveu uma estrutura de comunicação entre presos e integrantes que permanecem em liberdade. Esse modelo permite que decisões tomadas dentro das unidades penitenciárias tenham impacto direto nas comunidades controladas pelas facções.
Pesquisadores que estudam o fenômeno do crime organizado no Brasil apontam que a superlotação carcerária, a ausência de políticas consistentes de ressocialização e a precariedade estrutural de muitas unidades prisionais contribuíram para fortalecer esse tipo de organização.
Dentro dos presídios, facções frequentemente estabelecem regras internas, distribuem funções entre integrantes e mantêm redes de comunicação com o exterior. Em alguns casos, essas redes são utilizadas para organizar atividades criminosas, negociar alianças ou determinar disputas por território.
Esse cenário não é exclusivo do Rio de Janeiro. Em diferentes estados brasileiros, autoridades penitenciárias relatam que organizações como o Primeiro Comando da Capital desenvolveram modelos sofisticados de organização interna, com hierarquias bem definidas e canais de comunicação capazes de ultrapassar os limites físicos das unidades prisionais.
Investigações judiciais sobre crime organizado também têm gerado debates no Supremo Tribunal Federal sobre limites legais de medidas como quebra de sigilo e cooperação entre órgãos de investigação. Decisão do STF sobre quebra de sigilo em investigação criminal
Para especialistas, a reforma do sistema penitenciário é um dos elementos centrais para reduzir a capacidade de articulação dessas organizações.
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| Especialistas apontam desigualdade social e ausência histórica de serviços públicos como fatores ligados à expansão do crime organizado. |
A economia do crime nas periferias urbanas
Outro fator importante para compreender a permanência das facções e milícias em determinadas regiões é a existência de uma economia paralela que se desenvolve em torno dessas organizações.
Em muitas comunidades do Rio de Janeiro, atividades econômicas informais convivem com estruturas controladas por grupos criminosos. Esse controle pode incluir desde a circulação de mercadorias até a exploração de serviços essenciais.
No caso das facções ligadas ao tráfico de drogas, a principal fonte de financiamento continua sendo a venda de entorpecentes. Essa atividade movimenta grandes volumes de dinheiro e cria cadeias de distribuição que conectam bairros periféricos a redes internacionais de narcotráfico.
Além do comércio de drogas, investigações policiais apontam que organizações criminosas também podem explorar atividades como venda de produtos piratas, contrabando de armas e lavagem de dinheiro.
Já no caso das milícias, o modelo econômico costuma ser diferente. Em vez de concentrar suas atividades exclusivamente no tráfico de drogas, esses grupos frequentemente controlam serviços utilizados no cotidiano das comunidades.
Entre os exemplos mais citados por investigações conduzidas pela Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro estão a cobrança de taxas de segurança, a exploração do transporte alternativo, a venda de botijões de gás, a distribuição de sinal clandestino de televisão e internet e a ocupação irregular de terrenos para construção de imóveis.
Essas atividades podem gerar receitas constantes e criar uma rede de dependência econômica que reforça o controle territorial exercido pelas milícias.
O impacto social nas comunidades
Embora o debate sobre segurança pública frequentemente se concentre em confrontos armados e operações policiais, o impacto mais profundo dessas organizações é sentido no cotidiano de moradores que vivem nas áreas sob influência do crime organizado.
Em muitas comunidades do Rio de Janeiro, moradores convivem com regras impostas por grupos armados que determinam horários de funcionamento do comércio, limitam determinados comportamentos e estabelecem formas próprias de resolução de conflitos.
Pesquisadores que estudam o fenômeno descrevem esse cenário como uma espécie de “governança paralela”, na qual organizações criminosas exercem funções que, em teoria, seriam responsabilidade do Estado.
Esse modelo pode incluir desde a imposição de normas locais até a mediação de disputas entre moradores.
Para especialistas, esse tipo de estrutura tende a se consolidar principalmente em regiões onde o Estado historicamente teve presença limitada em áreas como infraestrutura urbana, educação, saúde e segurança.
Quando serviços públicos são escassos, organizações criminosas podem preencher parte desse vazio institucional, ampliando sua influência sobre o território.
A resposta institucional e os desafios da segurança pública
Nos últimos anos, diferentes estratégias foram adotadas por autoridades para enfrentar a presença do crime organizado no Rio de Janeiro.
Operações policiais de grande porte continuam sendo uma das principais ferramentas utilizadas pelo Estado. Essas ações frequentemente envolvem a participação da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, da Polícia Civil e, em determinadas situações, da Polícia Federal.
Além das operações de repressão direta, autoridades também têm investido em estratégias de inteligência, monitoramento financeiro e cooperação entre diferentes órgãos de segurança.
Especialistas apontam que o rastreamento de fluxos financeiros associados ao crime organizado pode ser uma ferramenta importante para enfraquecer essas estruturas. Ao atingir as fontes de financiamento das organizações criminosas, investigações financeiras podem reduzir a capacidade de expansão desses grupos.
Outra frente importante envolve a cooperação entre estados brasileiros. Como muitas organizações criminosas operam em escala nacional, ações coordenadas entre diferentes unidades da federação são consideradas essenciais para combater redes de tráfico e lavagem de dinheiro.
O contexto político e institucional
A discussão sobre segurança pública no Rio de Janeiro também está inserida em um contexto político mais amplo. Políticas de segurança frequentemente se tornam tema central de debates eleitorais e disputas partidárias.
Atualmente, o governo do estado é liderado por Cláudio Castro, filiado ao Partido Liberal. A gestão estadual tem defendido o fortalecimento das forças de segurança e a ampliação de operações policiais em áreas consideradas estratégicas.
Ao mesmo tempo, especialistas e pesquisadores ressaltam que políticas de segurança pública precisam ser acompanhadas por iniciativas voltadas para redução de desigualdades sociais e ampliação de oportunidades econômicas em regiões periféricas.
Esse debate envolve diferentes visões sobre como enfrentar o crime organizado e quais estratégias podem produzir resultados duradouros.
O futuro da segurança pública no Rio
O cenário da segurança pública no Rio de Janeiro permanece marcado por desafios complexos. Facções criminosas, milícias e redes de tráfico internacional formam um ambiente em constante transformação.
Nos últimos anos, mudanças no mercado internacional de drogas, avanços tecnológicos e transformações no sistema prisional têm influenciado a forma como organizações criminosas operam.
Ao mesmo tempo, novas ferramentas de investigação, como análise de dados e cooperação internacional entre agências de segurança, também têm ampliado a capacidade do Estado de identificar e combater essas redes.
Para especialistas em segurança pública, a compreensão desse fenômeno exige uma abordagem que combine repressão qualificada, inteligência policial, reformas institucionais e políticas sociais de longo prazo.
A história recente do Rio de Janeiro mostra que o enfrentamento do crime organizado não depende apenas de operações policiais pontuais, mas de estratégias estruturais capazes de reduzir as condições que permitem o surgimento e a expansão dessas organizações.
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| Vista aérea de comunidades do Rio de Janeiro revela a complexidade urbana da cidade, onde disputas entre facções criminosas e milícias impactam diretamente a segurança pública. |


