Entre a Avenida e as Pesquisas: Reprovação de Lula Cresce e Oposição Avança
A decisão da escola de samba de Niterói de homenagear o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ocorreu em um momento político delicado. Pesquisas recentes de opinião pública vêm apontando aumento na taxa de desaprovação do governo, especialmente em segmentos mais conservadores e em parte da classe média urbana. Esse cenário cria um ambiente em que manifestações culturais com conotação política tendem a ser recebidas de forma mais polarizada.
No resultado do desfile, a escola terminou com 264,6 pontos, a menor nota entre as agremiações, bem distante dos 270 pontos alcançados pela campeã Unidos do Viradouro e também abaixo dos 267,4 pontos da Mocidade Independente de Padre Miguel. Embora o julgamento técnico envolva critérios específicos — como harmonia, evolução, enredo e quesitos plásticos — a repercussão pública extrapolou a análise puramente carnavalesca e entrou no campo político.
Contexto de alta polarização
A narrativa do samba, centrada na trajetória de Eurídice Ferreira de Mello e na viagem de “13 noites e 13 dias” em pau-de-arara entre Garanhuns e Guarujá, fez referência direta à história de vida do presidente. Em um contexto de alta polarização, esse tipo de enredo deixa de ser apenas biográfico e passa a ser interpretado como gesto político explícito.
Paralelamente, levantamentos eleitorais indicam movimentações relevantes no campo da oposição. O nome de Flávio Bolsonaro aparece em crescimento em alguns cenários testados, refletindo a reorganização do eleitorado conservador após as eleições presidenciais. Mesmo que pesquisas variem conforme metodologia e período, o dado mais consistente é a consolidação de um bloco conservador numericamente expressivo, sensível a pautas de costumes e crítico ao governo federal.
A queda de braço do identitarismo
Nesse ponto entra a discussão estratégica do Partido dos Trabalhadores. Parte dos analistas avalia que a insistência em pautas identitárias como eixo central do debate público pode gerar ruído fora do eleitorado já alinhado ideologicamente. Para o eleitor conservador — especialmente em regiões onde valores tradicionais têm maior peso — a ênfase nesses temas pode reforçar rejeições já existentes, dificultando pontes de diálogo.
A repercussão negativa ao desfile da escola de Niterói pode ser interpretada como sintoma desse ambiente. Ainda que o carnaval historicamente dialogue com política e crítica social, a recepção atual tende a refletir o momento nacional. O que em outros períodos poderia ser lido como homenagem cultural, hoje é rapidamente enquadrado como posicionamento partidário.
Nada fica imune ao clima político
É importante ponderar, contudo, que o resultado na apuração não pode ser atribuído exclusivamente à conjuntura política. O carnaval é julgado por critérios técnicos, e a diferença de pontos pode decorrer de aspectos artísticos específicos. No entanto, a reação nas redes sociais e em segmentos do público demonstra que manifestações culturais não estão imunes ao clima político.
Aspectos concretos da minha análise
O episódio revela três elementos concretos do cenário atual: crescimento da desaprovação presidencial em determinadas faixas do eleitorado, fortalecimento de nomes ligados ao campo conservador nas pesquisas e um ambiente de forte polarização em que símbolos culturais passam a ser interpretados sob lentes ideológicas. Para o governo e para o PT, o desafio estratégico é decidir se mantém o foco em pautas que consolidam sua base histórica ou se amplia o discurso para reconquistar setores que hoje demonstram distanciamento.
Fechando questão
Em síntese, o desfile da escola de Niterói funcionou como termômetro simbólico de um país dividido. A política transbordou para a avenida, e a avenida devolveu à política um retrato do momento nacional.

MAURÍCIO JÚNIOR
Um apaixonado por política, CEO da MRO Mídia e com muito orgulho fundador do portal ND1.
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