A Infância sob Vigilância: Onde o Estado Falha e o Crime se Torna Lei"

Em comunidades sob domínio do tráfico de drogas, existe uma violência silenciosa que dificilmente aparece em boletins de ocorrência, mas que faz parte da rotina de muitas famílias. Pais e mães relatam, de forma reservada, o medo constante de que suas filhas, ainda menores de idade, sejam alvo de assédio por parte de criminosos armados que exercem controle territorial sobre essas áreas. O silêncio não indica inexistência do problema. Ele é, na prática, um mecanismo de proteção.

Relatos colhidos pela rede de proteção à infância indicam que famílias de comunidades como o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, convivem com o medo constante de que meninas adolescentes sejam alvo de abordagens e assédios por homens ligados ao tráfico de drogas. Segundo profissionais ouvidos pelo ND1, o controle territorial exercido por grupos armados cria um ambiente em que a denúncia formal se torna inviável, levando pais e responsáveis a adotarem estratégias silenciosas de proteção.

Nossa equipe ouviu moradores, profissionais da área social e analisou dados oficiais que ajudam a compreender por que esse tipo de relato raramente se transforma em denúncia formal, apesar de ser recorrente em atendimentos de Conselhos Tutelares, escolas públicas e organizações comunitárias.

O relato a seguir foi colhido em uma terça-feira, 20 de janeiro de 2026 e teve a identidade da fonte preservada por razões de segurança.

“Quem mora aqui sabe como funciona. Minha filha tem 14 anos e começou a ser observada por homens ligados ao tráfico quando passou a circular sozinha para ir à escola. Eles chamam pelo nome, fazem comentários sobre o corpo, perguntam onde ela mora. Não é cantada comum. É intimidação. Uma vez, ela chegou em casa dizendo que um deles falou que ela já estava ‘virando mulher’ e que era melhor ela respeitar quem manda aqui. Depois disso, a gente mudou tudo.”

O pai conta que a filha deixou de frequentar a quadra da comunidade, passou a ir acompanhada para a escola e evitou circular nos horários em que os traficantes costumam se reunir. 

“Aqui não existe essa opção de denunciar. A polícia entra e sai, mas quem fica somos nós. Se alguém fala demais, todo mundo sabe o que pode acontecer. Quando envolve criança, o medo é ainda maior.”

Segundo profissionais da rede de proteção à infância, esse tipo de relato é mais comum do que parece, mas quase nunca chega ao sistema formal de denúncias. Conselheiros tutelares confirmam que muitas famílias procuram orientação pedindo sigilo absoluto, justamente por viverem em territórios controlados por facções criminosas.

Uma conselheira tutelar ouvida pela reportagem explica que o padrão se repete. “As famílias não chegam dizendo ‘houve um crime formal’. Elas chegam dizendo que estão com medo, que a filha está sendo observada, abordada, que há uma pressão velada. Em áreas dominadas pelo tráfico, esse tipo de assédio se sustenta no poder da arma e no controle do território. O medo impede que a denúncia avance.”

“Eu moro aqui desde criança e nunca tive coragem de falar isso publicamente. Mas quem vive na comunidade sabe. Minha filha tem 16 anos. A gente começa a ficar atento quando percebe que homens mais velhos, ligados ao tráfico, passam a observar as meninas. Não é um olhar normal. Eles chamam pelo nome, perguntam onde moram, fazem comentários que deixam a criança desconfortável. Uma vez, minha filha chegou em casa chorando, dizendo que um deles disse que ela ‘já estava virando mulher’ e que era para ela andar mais devagar quando passasse pela quadra. Aquilo acabou comigo,” contou aos prantos, fora da comunidade onde mora a mãe de uma menina de 16 anos.

Dados oficiais ajudam a contextualizar o problema. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostra que a maioria absoluta das vítimas de violência sexual no país são crianças e adolescentes, principalmente meninas. Embora os dados não detalhem o vínculo direto com o tráfico em todos os casos, especialistas apontam que territórios marcados pela presença do crime organizado ampliam a vulnerabilidade e dificultam a atuação do Estado.

O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania também reconhece que grande parte dos casos de violência sexual contra menores não chega ao conhecimento das autoridades. A subnotificação é um dos principais desafios enfrentados pelas políticas públicas de proteção à infância, especialmente em áreas onde o medo de retaliação se sobrepõe à confiança nas instituições.

Educadores que atuam em escolas localizadas em comunidades dominadas pelo tráfico relatam mudanças de comportamento em alunas adolescentes. Diretoras e professoras afirmam, em relatos colhidos por veículos regionais e por conselhos educacionais, que meninas deixam de frequentar aulas, abandonam atividades extracurriculares e demonstram ansiedade constante, especialmente quando precisam circular sozinhas pelo território.

Uma psicóloga que atua em um projeto social em uma comunidade urbana do no estado do Rio explica que o impacto vai além do episódio de assédio. 

“Essas meninas crescem aprendendo que o corpo delas está sob vigilância e que não podem reagir. Isso afeta a autoestima, o rendimento escolar e a percepção de futuro. Muitas famílias optam pelo silêncio como estratégia de sobrevivência.”

A Defensoria Pública do Estado, em relatórios recentes sobre violações de direitos em áreas vulneráveis, aponta que o controle exercido por grupos armados cria um ambiente onde direitos fundamentais são relativizados. O domínio territorial interfere na circulação, na rotina escolar e na capacidade de buscar ajuda institucional, especialmente quando o risco de represália é concreto.

O pai ouvido pelo ND1 resume o dilema vivido por muitas famílias. “A gente ensina a filha a estudar, a sonhar, mas também ensina a ter medo. Ensina a baixar a cabeça, a não responder, a mudar de caminho. Isso não é proteção de verdade, é sobrevivência. Mas é o que dá para fazer quando quem manda tem arma e você não tem para onde correr.”

Especialistas em segurança pública explicam que o assédio praticado por criminosos em comunidades não segue, na maioria das vezes, um padrão explícito que facilite a caracterização imediata do crime. Ele se manifesta por meio de intimidação, aproximação forçada e uso simbólico do poder armado. Esse tipo de violência raramente deixa provas materiais e quase nunca resulta em prisão, o que reforça o ciclo de impunidade.

Para organizações que atuam na defesa dos direitos da criança e do adolescente, dar visibilidade a esses relatos é fundamental para romper o silêncio sem expor as vítimas. “Falar sobre o problema de forma responsável é uma maneira de pressionar o Estado a agir”, afirma um representante de uma entidade de defesa da infância, ouvido pela reportagem. “O silêncio protege o agressor e isola ainda mais as famílias.”

O retrato mais cruel dessa realidade

A violência nessas comunidades é tão intensa e silenciosa que em muitos casos, sem a devida intervenção do estado e da justiça, muitas famílias, com medo de que os assédios possam se transformar em crime contra seus filhos, acabam por abandonar suas casas e família que vivem no local. 

“Eu nunca imaginei que sair da minha casa seria a única forma de proteger meus filhos. A gente morava no Complexo da Penha e não saiu porque quis. Saiu porque ficou insustentável. Lá naquela comunidade, a violência não é só tiro e confronto. É o medo diário, silencioso, que vai tomando conta da vida da gente.

Começou com comentários, olhares, abordagens que pareciam pequenas, mas que assustavam. Minha filha ainda é menor de idade. A gente percebe quando algo muda. Ela começou a evitar sair sozinha, ficou mais calada, mais retraída. Um dia chegou em casa dizendo que homens ligados ao tráfico tinham falado com ela na rua, perguntado coisas demais, do jeito errado. Não foi agressão direta, mas foi o suficiente para tirar o nosso chão.

A gente tenta procurar ajuda, mas não tem para onde correr. Denunciar não é opção. Quem mora aqui sabe. A polícia entra, faz operação e vai embora. O Estado não fica. Quem fica somos nós, expostos, marcados, com medo do que pode acontecer depois.

Começamos a viver presos dentro de casa. Mudamos horários, trajetos, rotina de escola. Mas isso não resolve. Quando você sente que não consegue mais proteger seu filho dentro do lugar onde mora, algo está muito errado. O medo de que aquilo evoluísse para algo pior foi crescendo. A gente não dormia mais em paz.

No fim, a decisão foi dura. Tivemos que sair. Deixar a casa, vizinhos, parte da família que ainda vive ali. Não foi por escolha, foi por necessidade. Para proteger nossos filhos. Porque quando o Estado falha e a justiça não chega, a única saída que sobra para muitas famílias é fugir do risco.

Hoje, a gente vive longe, tentando recomeçar. Mas fica a revolta. Nenhuma família deveria ser forçada a abandonar sua casa para garantir a segurança dos próprios filhos. Isso não é vida. Isso é tortura.”

A Fala do Governo Lula 3

O atual governo brasileiro tem reforçado, em atos públicos, o compromisso com a proteção integral de crianças e adolescentes. Em 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, ao participar de ações federais de enfrentamento ao abuso e à exploração sexual:

“O Brasil será o país que protegerá cada criança e cada adolescente de qualquer forma de abuso. É preciso unir esforços de toda a sociedade, das instituições públicas e privadas, para garantir que nossas crianças cresçam seguras, com dignidade e liberdade, longe de qualquer violência ou exploração.”

Essa declaração, feita em contexto de políticas públicas nacionais que envolvem múltiplos ministérios, enfatiza a prioridade constitucional da proteção integral, prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

O estado de abandono do próprio estado

A repetição desses relatos expõe um problema estrutural que vai além de casos isolados: a falência do Estado brasileiro em garantir segurança básica a famílias que vivem em territórios dominados pelo crime organizado. A ausência permanente do poder público cria zonas onde a Constituição, o Estatuto da Criança e do Adolescente e a própria autoridade do Estado deixam de existir na prática. Nessas áreas, a proteção de crianças e adolescentes não é apenas insuficiente — ela é inexistente.

A atuação da segurança pública, quando ocorre, é episódica, reativa e quase sempre voltada ao confronto armado, não à proteção cotidiana da população. Operações policiais pontuais não substituem presença institucional contínua. Ao contrário, muitas vezes aprofundam o clima de medo, sem desmontar a estrutura de controle social exercida por facções criminosas. O resultado é um vácuo de poder no dia a dia, onde traficantes impõem regras, determinam comportamentos e exercem controle direto sobre moradores, inclusive crianças e adolescentes.

Esse cenário revela uma contradição central da política de segurança pública no Brasil: enquanto o discurso oficial fala em proteção da infância e prioridade absoluta, a prática mostra que o Estado abandona essas populações à própria sorte. Conselhos tutelares, quando existem nessas regiões, operam sem estrutura, sem proteção e, em muitos casos, sem condições mínimas de atuação. A escola, outro pilar de proteção, também se torna refém do território, incapaz de atuar como espaço seguro quando professores, diretores e alunos vivem sob ameaça constante.

As polícias estaduais, por sua vez, não estão preparadas — nem institucionalmente orientadas — para lidar com crimes silenciosos como assédio, intimidação e coerção moral praticados por traficantes. Esses crimes raramente entram nas estatísticas oficiais, não porque não existam, mas porque denunciar significa, para muitas famílias, assinar uma sentença de expulsão ou morte. O modelo atual de policiamento ignora essa realidade e insiste em medir eficiência apenas por prisões, apreensões e confrontos, deixando de lado a proteção preventiva e o acompanhamento comunitário.

A omissão do Estado se torna ainda mais grave quando se observa que, ao não garantir segurança, ele empurra famílias inteiras para o deslocamento forçado. Pais e mães abandonam casas, empregos informais e redes familiares para proteger seus filhos, numa espécie de êxodo silencioso que não aparece nos dados oficiais. Trata-se de uma violência institucional indireta: o Estado não expulsa formalmente essas famílias, mas cria as condições para que permanecer se torne impossível.

Nesse contexto, o crime organizado não apenas ocupa o espaço deixado pelo poder público, mas se consolida como autoridade local, impondo medo, silêncio e submissão. A ausência de políticas públicas integradas — que unam segurança, assistência social, educação e proteção à infância — transforma comunidades inteiras em territórios onde crianças crescem sem qualquer garantia real de direitos.

O que esses relatos revelam, portanto, não é apenas a brutalidade do tráfico, mas a incapacidade persistente do Estado brasileiro de cumprir sua função mais básica: proteger seus cidadãos mais vulneráveis. Enquanto essa falha estrutural não for enfrentada de forma séria e contínua, famílias continuarão vivendo sob regras impostas pelo crime, e crianças seguirão crescendo em ambientes onde o medo substitui a lei. 

Estado paralelo emerge dos relatos

O que emerge desses relatos é um retrato de uma violência cotidiana que não aparece nas estatísticas criminais com a clareza necessária, mas que molda a vida de meninas e famílias inteiras. O medo que impede a denúncia também impede o acesso a políticas públicas, perpetuando um cenário em que a infância é vivida sob vigilância e ameaça.

Ao expor essas histórias com proteção de fontes e rigor jornalístico, o ND1 busca lançar luz sobre uma realidade que permanece à margem do debate público, mas que afeta diretamente milhares de crianças e adolescentes em comunidades dominadas pelo crime organizado no Brasil.

Canais de Denúncia e Apoio Sigiloso

O principal mecanismo nacional para denúncias de violações de direitos humanos é o Disque 100 (Disque Direitos Humanos). O serviço funciona 24 horas por dia, inclusive em feriados e fins de semana, e garante o anonimato total do denunciante. Além da ligação gratuita, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania disponibiliza atendimento pelo WhatsApp no número (61) 99611-0100 e por videochamada em Libras, permitindo que o relato seja feito sem a necessidade de uma comunicação verbal que possa ser ouvida por terceiros em ambientes de risco.

Assistência Jurídica e Proteção Institucional

Para as famílias que buscam orientações sobre como proceder em casos de assédio ou ameaça sem necessariamente passar pela polícia local, a Defensoria Pública é a instituição mais indicada. Através do Núcleo de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Nudedica), os defensores podem oferecer assistência jurídica gratuita e buscar medidas de proteção que não exponham a vítima. Em situações de extrema gravidade, onde a permanência na comunidade se torna impossível, a Defensoria também pode orientar sobre a inclusão em programas de proteção a vítimas e testemunhas ameaçadas.

O Papel dos Conselhos Tutelares

Embora o texto mencione as dificuldades operacionais, os Conselhos Tutelares permanecem como a porta de entrada para a rede de proteção. Eles têm o poder de requisitar serviços públicos nas áreas de saúde, educação e assistência social, além de encaminhar casos ao Ministério Público. Para as famílias que temem a identificação, o contato pode ser feito diretamente na sede do conselho de cada região administrativa, onde é possível solicitar que o atendimento seja registrado sob sigilo, visando apenas o acompanhamento psicossocial da criança ou adolescente.

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